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Por: Rui Oliveira
A vetusta cidade de Lisboa, desde sempre celebrada por músicos, poetas e actores, foi palco privilegiado de Portugal, no qual se desenrolaram muitos dos acontecimentos que nos marcam, na actualidade, como portugueses, como europeus e, até, como povo de diáspora. Por razões óbvias, foi sobre a população de Lisboa e do seu termo que mais intensamente se fizeram sentir as profundas alterações provocadas por acontecimentos de ordem vária; nomeadamente os de carácter socioeconómicos como, por exemplo, os Descobrimentos Marítimos, dos séculos XV e XVI, que transformaram a cidade no principal centro financeiro da Europa quinhentista; ou em acontecimentos de contornos mais trágicos, de raiz social ou natural como: as guerras, os autos-de-Fé inquisitórios, as pestes ou os terramotos. Precisamente estes últimos, os terramotos, são um campo aliciante para a história da mentalidade da população do termo e cidade de Lisboa. Neste contexto específico (historiografia das mentalidades) o seu estudo é paradigmático para Portugal uma vez que, e durante séculos, Lisboa foi praticamente a única urbe em que se "forjou", em termos de caracterização, uma cultura diferenciadamente urbana.
Fruto da profícua historiografia olisiponense, por um lado, e de avançados estudos geológicos, por outro, sabemos que a região é de risco sísmico considerável. Assim, constatamos, na vasta historiografia de Lisboa, referências documentais escritas a abalos telúricos não só de intensidades relevantes como, quiçá, a épocas de actividade sísmica particularmente activas. Aliás, parece-nos enquadrar-se nesta característica, a de crise sísmica, os vários abalos ocorridos no século XVI. Com efeito, além do conhecido terramoto de 1531, que deu azo a um importante texto de Gil Vicente e destruiu grande parte da cidade, há notícias de outros abalos telúricos em Lisboa, respectivamente, nos anos: 1504, 1512, 1551, 1575, 1597 e 1598 (FERREIRA, 1970:163-165). As reacções colectivas a estes fenómenos naturais, estão documentadas nas fontes coevas, com particular destaque para Garcia de Resende e Pero Roiz Soares. Porém, na Memória e Imaginário colectivo dos lisboetas actuais, o destaque vai para o Terramoto de 1755. O terror, o pasmo causado pela convulsão sísmica, e a luta contra o incêndio que devorou o que escapou ao abalo, nos dias sequentes a 1 de Novembro, são factos indelevelmente registados na memória histórica. A esta memória histórica, terrificante, contrapõe-se uma outra, onde pontificam, o pragmatismo, a eficiência e decisões criteriosas. Sobretudo estas últimas alicerçadas, não na vontade férrea de um homem, mas, nas mentes esclarecidas pelo Iluminismo, que possibilitou o renascimento da cidade de Lisboa e de um Reino de Portugal combalido. Renascimento que, na actualidade, ainda nos faz sentir orgulhosos e respeitáveis.
O cataclismo que desabou sobre Lisboa tem sido objecto, ao longo destes dois séculos e meio, de inúmeros estudos baseados em descrições e relatos de testemunhos vivenciais ou de informações, orais e escritas, transmitidas sem experiência directa do brutal cataclismo. Este facto deu origem à construção de diversos cenários, mais próximos da realidade uns que outros, consoante a formação e o estado emocional de quem os descreveu ou das fontes que utilizou. A bibliografia existente, contemporânea e actual é vasta e de grande importância. Nela se incluem as "Colecções de Textos" (CHANTAL, 1962), com folhetos, relações, sonetos, elogios fúnebres, sermões, narrativas, dissertações apologéticas ou filosóficas, interpretações de cariz escatológico ou centradas no problema da predestinação ou, ainda, da moderação dos costumes. Porém, a visão de conjunto das obras escritas sobre o terramoto de 1755, encontra-se na obra intitulada: Sismicidade de Portugal. Estudo da documentação dos séculos XVII e XVIII (THEMUDO BARATA, 1989). Outro olhar sobre Lisboa destruída pode colher-se através de cartas de homens de negócios e diplomatas estrangeiros, que espelham, não só as emoções da experiência vivida, como a sequente desorientação e penosas privações, com que os sobreviventes se viram confrontados numa cidade destruída, pilhada e incendiada. É o caso da correspondência do Núncio Apostólico, em Lisboa entre 1754 a 1760, Filippo Accaiuoli (CARDOSO, 2005;20-21). Do punho deste servo da Igreja saiu, ao que se julga e no estado actual das investigações sobre o sismo de 1755, a primeira notícia escrita, ainda que sumária, da calamidade. O texto constitui um quadro vivo e dramático, da situação em que se encontrava o clérigo e o seu séquito. O próprio pedaço de papel utilizado na missiva reflecte a situação anómala e de emergência. A missiva destinou-se a um irmão do Núncio Apostólico, eis a sua transcrição: «Da desolada terra que na passada sexta-feira era Lisboa. Amantíssimo Irmão e Senhor (Caríssimo Irmão).
De uma tenda no campo do mosteiro dos Beneditinos [São Bento] feita com duas travessas [tábuas] de madeira e coberta com tapetes e outros tecidos dos monges, estou-vos a escrever, mísero avanço da morte, nu, pobre e miserável, mas são por milagre. Sábado, festa de Todos os Santos, às dez horas de França surpreendeu-nos um terramoto que destruiu Lisboa em oito minutos. Acendeu-se logo o fogo, que queimou muitíssimas casas, e passando de uma a outra percorreu toda a cidade, e dura ainda, e está mesmo próximo da minha, e vê-se que não há remédio até que passe o fogo. A Patriarcal, o Palácio Real e o grande Teatro novo, como a Alfandega e os armazéns, foram todos engolidos, e tudo se incendiou. Em Belém, arruinou o Palácio, e o Rei escapou em camisa, e dorme no campo numa carroça, e está de dia na tenda com toda a família real; mandei a pedir-lhe uma tenda, mas mandou responder que não tinha; assim, aqui estou sob uma cobertura e uma tela dos monges com os meus feridos e resto dos familiares. Aqui milhares de pessoas me perseguem pedindo indulgências, absolvições, eu faço aquilo que posso. Ontem de manhã, disse Missa no campo e dei a bênção ao Povo, que se urlava e me seguia de forma que para beijar-me a mão me comprimia, e dois me regiam, porque de outra teria caído por terra. Leva-se o Sacramento aos moribundos e gira-se com os feridos para os cirurgiões e fiz benzer um terreno à parte para sepultar os mortos, que são milhares e milhares, e isto sucede em cada momento. Caiu todo o Palácio do Embaixador de Espanha, cujo Filho se salvou, mas o pobre do Embaixador ficou sob as ruínas. Em suma é um horror, que julgamos nunca ter havido igual, e até ontem com grande temor se andava sobre as pedras e os cadáveres, como eu vim em pantufas e vestes de quarto, tendo ficado tudo sob as ruínas. O meu secretário morreu, assim como o mestre de casa, um doméstico do Auditor e as minhas mulas; em suma, tudo é horror e misérias, e Lisboa é um monte de pedras. Agora chega o fogo à minha casa; todas as casas que tinham ficado ilesas das ruínas vão-se incendiando todas por efeito de um fogo subterrâneo. Eu cheio de confusão e de dor. Os danos que se podem calcular a um baixo preço ascendem a centenas de milhões. Adeus (A.S.V. Carte Farnesiane 18,f. 18; S.S. Portugallo 218, f.n.n.; BAV, vat. Lat. 7925, f. 131).
Depois, como todos nós sabemos desde os bancos da escola, munido de vontade férrea e esclarecida, Sebastião José de Carvalho e Melo reergue a cidade de Lisboa, reorganiza a economia do reino, reforma o ensino e a administração do estado, fortalece o exército e defende as colónias. O reino mudou, para melhor, apenas num quarto de século, porque: «Um país pode ser grande pela força do seu povo; mas é-o ainda mais pela clarividência e dedicação ao bem público e pelo sentido de estado dos seus governantes» (SERRÃO, v. VII:334)
Bibliografia:
CARDOSO, Arnaldo Pinto, 2005 «O terrível Terramoto da Cidade que foi Lisboa - correspondência do Núncio Filippo Acciaiuoli», Arq. Secreto do Vaticano; ed, Aletheia Editores, Lisboa, pp. 20-21.
CHANTAL, S., 1962, «La vie quotidienne au Portugal après le tremblement de terre de Lisbonne de 1755», Paris. Biblioteca Nacional (BN), 5 volumes.
FERREIRA, Maria Emília Cordeiro, 1970, «Terramotos», in: Dic. da História de Portugal, IV, Lisboa, pp. 163-165.
THEMUDO BARATA, Maria do Rosário, e outros, 1989, «Sismicidade de Portugal. Estudo da documentação dos séculos XVII e XVIII», Lisboa, 2 volumes
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